maio 25, 2004

Matilde Rosa Araújo premiada

Atribuído (por unanimidade) pela direcção da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), a escritora Matilde Rosa Araújo recebeu ontem o Prémio Carreira.

Mais de meio século de vida dedicado à escrita, e também ao ensino, com dezenas de livros editados, uma acção pedagógica, internacionalmente reconhecida, em defesa dos direitos da criança, Matilde Rosa Araújo, já anteriormente galardoada com outros prémios relevantes, é um nome maior da literatura portuguesa para crianças.
De entre os seus vários livros de histórias, contos e poesia, os mais conhecidos são O Livro da Tila, O Palhaço Verde, O Sol e o Menino dos Pés Frios e Baladas das Vinte Meninas.

AS MUITAS FOMES DAS CRIANÇAS

Extraídos de uma entrevista publicada em 2000 no D.N., em que Matilde Rosa Araújo fala da escrita para o universo infanto-juvenil, de dar afectos, alertando também para a falta deles, são os parágrafos que se seguem:

A criança é o seu universo?
Não comecei por aí. Tive uma fase da chamada escrita para adultos, embora a criança já estivesse presente. Quando fui dar aulas, o meu encontro com as crianças revelou-se a grande descoberta. Aprendi a ver a criança como pessoa que é.

Um ser complexo ...
Muito. E a sociedade nem sempre sabe estar com a criança. Permito-me salientar o caso das que mais sofrem. Das crianças com fome de tudo. Fome de afectos, fome de pão, sede de água, sede de compreensão. E falo das crianças feitas agentes de guerra, a quem metem uma arma nas mãos para matar.

A sua literatura, no conto como na poesia, fala e dirige-se a todas as crianças, mas fixa-se especialmente nos «meninos da rua». Uma forma de intervenção?
De alertar para cruentas realidades. Mas há também crianças aparentemente com bem-estar e mais acompanhadas que sofrem de falta de afectos.»
....
«Na sua poesia para o público infanto-juvenil concilia a palavra sentimental e o humor. Uma forma de estar na vida?
Chego a rir-me sozinha. Aprecio a literatura de humor que vai ao encontro do sol da vida.
Ao mesmo tempo que as palavras jogam o jogo do mundo infantil, ergue-se a voz adulta...
Essa voz não aparece por eu querer estar lá. É involuntária. Sinto a criança comigo. É um ser convivente. E uma voz adulta natural.

Será a voz que melhor conta a dor da criança medida?
Uma voz de esperança no futuro, apesar de tudo. Esperança de que os direitos da criança sejam respeitados. Se não houver capacidade para respeitar os direitos da criança, não serão respeitados os direitos do Homem.

Crianças agredidas existem independentemente do meio sociocultural em que se integram?
A falta de calor humano encontra-se a todos os níveis.»

Publicado por vmar em maio 25, 2004 12:00 PM
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